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NARA ASSIS

Ódio com propósito

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Há, pelo menos, dois tipos de ódio. Aquele que é resultado das injustiças cometidas diante de nossos olhos, dia após dia, causado por aversão intensa a algum tipo de situação ou pessoa.

E há aquele movido apenas pelo rancor, pelo medo, pela falta de amor, disseminado para criar um caos que demanda muito nosso tempo, a ponto de encobrir aquilo que de fato importa.

Você pode não querer usar a palavra ódio – embora eu não compreenda essa mania esquisita de não dar nome aos bois – mas se você mora no Brasil e está passando, mesmo que dentro da sua bolha, por um terço do que a maioria da população tem passado nos últimos anos, deve estar sentido um pouco de ódio. Use qualquer outra palavra, nada conseguirá descrever melhor esse sentimento.

Mas se o seu problema não é apenas receio do termo, e inclui também alienação e a prática do outro tipo de ódio – aquele motivado pelo rancor e o medo – bem, o caso já é bem mais complicado. Devo dizer que não faz muito sentido temer usar a palavra ódio, porque não tem como substituir, e além disso, é injustificável. É um ódio sem propósito, entende? É ódio pelo ódio, mas a serviço de alguém, de alguns. Vamos chamar este tipo de rancor, para diferenciar.

É um ponto crucial de combate a este (des)governo, é hora de assumir e aprender a lidar com seu ódio
Voltando àqueles que têm receio apenas de dizer que sentem ódio, não se sintam mal, não se sintam culpados, não se sintam menos cristãos ou qualquer outra coisa que tentem impor a vocês. A raiva, a indignação, o ódio são os sentimentos que nos fazem dizer não ao que está posto, que nos fazem reagir, lutar. Estão tentando nos confundir, como sempre, quando afirmam que não se combate o mal com ódio – e aqui, me refiro ao ódio relacionado à aversão máxima às injustiças praticadas, claro!

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Já passamos do limite do aceitável. Os que estão no poder, principalmente o presidente Bolsonaro e seus aliados, estão dando sinais do fim da democracia e rindo na nossa cara. Não é hora de dizer que a nossa democracia não é a ideal, a questão é que não há como melhorá-la se ela deixar de existir. É um ponto crucial de combate a este (des)governo, é hora de assumir e aprender a lidar com seu ódio, é o momento de canalizar toda essa raiva para o que realmente importa.

Nós sabemos que a situação piorou muito desde que Bolsonaro assumiu, sabemos que houve desmantelamento da educação (e isso não é a toa, é um projeto), sabemos que os casos de corrupção neste governo já desmentiram o falso discurso moralista que o elegeu, sabemos da alta do combustível, da falta de diplomacia perante os demais países, sabemos que por muito menos a Dilma Roussef caiu. Mas não bastou.

A pandemia da Covid-19 demonstrou o projeto genocida deste governo, que recusou inúmeras propostas de compra da vacina, que incentivou o uso de medicamentos sem comprovação científica, que deixou faltar oxigênio, que desdenhou de medidas preventivas, como o uso de máscaras, que estimulou e promoveu aglomerações. Mais de 470 mil mortes, desde maio de 2020 não estão sendo suficientes para um impeachment. Como não sentir ódio?

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Eu não quero ter que esperar 2022 para tentar mudar algo, e é isso que os parlamentares precisam entender. O risco é muito grande, e não se pode jogar assim com quem é dominado pelo rancor, aquele ódio sem propósito. Mas, se tivermos que esperar, não coloque tudo em risco também nas urnas. O seu orgulho ferido, por desgosto com os erros do Partido dos Trabalhadores (PT), por exemplo, não vale isso. Não é sobre você, é sobre o nosso país, sobre milhares de irmãos e irmãs que voltaram a viver na extrema pobreza.

É um apelo. Ouça seu ódio, canalize para mudar o que está posto. Que seja pelo seu combustível, pelo seu feijão, pelo seu luto, pelo futuro do seu filho ou filha, pelo mínimo apreço à democracia. Ninguém tem o direito de dizer que você não pode odiar quem desdenha da vida todos os dias e promove o ódio rancoroso e sem propósito a todo momento, apenas para se manter no poder.

Nara Assis é jornalista.

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Opinião

A visão médica: Covid -19

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A ideia desse artigo e dos próximos é compartilhar um pouco do dia a dia do médico que está na linha de frente de enfrentamento ao Covid-19. Descrever emoções, ações, e explicar também um pouco das tomadas de atitudes e compartilhar histórias baseadas em fatos reais, com claro, nomes fictícios e locais não identificados.

Vamos começar do princípio, eu estava em um dos plantões na terapia intensiva em meados de Abril de 2020 quando começo a ouvir falar de SARS-COv2, COVID-19, e confesso, num primeiro momento o que se passou na minha cabeça foi que era fake news, boato, exagero ou lenda. Mas comecei a ficar com medo, quando ouvi um áudio do whatsapp, com a voz de uma enfermeira brasileira que mora na Itália, desesperada, gritando que nunca tinha visto morrer tanta gente, rápido, de uma vez, com tamanha falta de ar.

Então, os cursos das sociedades médicas se voltaram para esse novo vírus, as discussões entre os melhores especialistas do Brasil vieram, junto com os casos positivos. E para o meu desespero, as discussões não levavam a nada. Ninguém sabia absolutamente nada. (Graças a Deus hoje posso usar o verbo no passado!) Tudo ali naquele cenário era diferente. Tudo! E desde então, mergulhamos num novo mundo, um mundo real, com uma doença avassaladora chamada COVID-19.

Começaram-se as revisões de literatura, todos buscando um norte, de como conduzir os pacientes, como “frear” esse vírus. E nesse turbilhão, olhamos para os lados e vamos vendo pessoas morrendo, nossos familiares adoecendo e por vezes morrendo também, nossos colegas partindo, adoecidos, internados na UTI que eles próprios trabalhavam.

Até que num dia comum, fui para o plantão, dia pesado, daqueles que você não para um minuto. Ainda pela manhã, comecei a sentir um frio grande, vesti um capote, me agasalhei e segui o plantão. A tarde, um cansaço além do habitual e uma tosse incessante

Até que num dia comum, fui para o plantão, dia pesado, daqueles que você não para um minuto. Ainda pela manhã, comecei a sentir um frio grande, vesti um capote, me agasalhei e segui o plantão. A tarde, um cansaço além do habitual e uma tosse incessante, que me dificultava falar, cheguei em casa e pensei:

– Nada como um bom banho quente, um chá de camomila, meias e cama! Doce ilusão a minha, tive uma noite muito mal dormida, no outro dia cedo já fui ao laboratório coletar mais um RT- PCR ( coletávamos quase que semanalmente o swab nasal) e , como estava com tosse, naquele momento mais esporádica, resolvi fazer uma tomografia de tórax.

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Assim fui, deitei naquela maca, horrorosa, diga-se de passagem, que sensação estranha eu senti quando aquela voz robótica falou para mim: – Puxe o ar e segure! Opa! Que dificuldade para “puxar” o ar. Que dificuldade para segurar o ar. Mas enfim, aguardei as imagens para sair com elas já dali, essa sou eu querendo ser minha própria médica.

E quando as recebo, quase não consigo parar em pé, meu coração acelera, tenho a sensação de que tudo por segundos parou. Meu Deus! Eu estou com COVID e com quase 50% de comprometimento pulmonar! Nunca imaginei que veria em mim uma imagem pulmonar daquelas, não porque pensasse que era inatingível, por que tenho certeza que não ( mas aí já é uma outra história), mas porque realmente não acreditava e, nessa hora, tudo que queria era não ter entendido o que vi naquele exame. Fui para casa, me isolei, fiquei afastada da minha família por longos 16 dias.

Dias esses que tudo o que eu sabia era que estava contaminada, com comprometimento pulmonar e que até o momento nada, absolutamente nada era possível de ser feito ou tomado com qualquer mínima garantia de “frear” esse vírus. Segui tentando me alimentar, mesmo com vontade zero, fazendo fisioterapia 3x ao dia, usando meu despertador quando dormia para me avisar para ficar na posição prona (de bruços) de 2/2h, acordando de madrugada com a sensação de estar com um saco plástico na cabeça e saturando 85%, querendo surtar, mas tentando de todas as formas manter a mente positiva, centrada, equilibrada. Ia para o banheiro, ligava o chuveiro no quente, tentava nebulizar ali gotículas de óleo de lavanda, meditar e focar no porque eu queria viver, porque eu precisava viver.

E aos poucos, era como se tudo fosse voltando ao eixo, voltando ao normal. E assim se passaram 16 dias de isolamento.

Entao, hoje eu me pergunto, depois de 1 ano e 2 meses que tive covid e de atualizações sobre o covid, respostas mais solidas aos tratamentos, níveis melhores de evidencia? Você faria tudo igual novamente? Isolamento em casa sozinha? Meditação com queda de oxigenação? Minha resposta com certeza é não! Absolutamente não, de jeito nenhum!

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Mas funcionou não funcionou? Eu estou viva, e sabendo o que já sabemos dessa doença hoje, só estou viva porque não era o meu dia, simples assim! Hoje, eu iria para um hospital, com um médico da minha confiança, que faça ciência e não empirismo, e que me orientasse também a meditar e usar meu óleo de lavanda, como terapias que integrassem a medicina tradicional.

Hoje já temos como tomar medidas cientificamente, tanto na medicina tradicional quanto na medicina alternativa. Vamos buscar o respaldo cientifico, o Covid-19 não é brincadeira, todos sabemos disso, e quando digo todos, são todos mesmo.

Hoje não existe uma só pessoa no mundo inteiro que não tenha perdido alguém próximo, ou que ao menos não saiba de alguém conhecido que faleceu. Estamos caminhando nas descobertas, assim como aconteceu comigo, deu certo para outros e não deu para muitos, estamos caminhando na ciência, estamos caminhando na integração dos métodos alternativos e tradicionais, mas, por favor, vamos nos embasar, vamos nos certificar. Com saúde não se brinca!

Eu entendo que no momento que recebemos o diagnóstico isso gera em nós um medo tão grande que tudo o que nos orientarem a fazer, faremos, mas vamos tentar respirar um pouco, buscar uma segunda opinião, um médico da sua confiança, com protocolos de tratamento bem certificados, já temos material cientifico para isso. Todos devem estar abertos a mudanças, não existe nenhum dono da verdade, e infelizmente, existem aproveitadores para tudo neste mundo.

As medidas tomadas hoje já não são as de ontem. Sigamos com fé, focados no que nos faz viver e, vivendo sempre por um amanhã melhor. E eu sigo por aqui, buscando, lendo, estudando, tentando me atualizar para sempre levar o melhor para os que buscam minha ajuda, e como gosto de dizer diariamente imitando um “amigo meu”, Dr. Derek :

– Hoje esta um lindo dia para salvar vidas!

Jordannia Campos X. Bonillo Saddi é médica e trabalha na linha de frente da Covid-19

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