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RENATO GOMES NERY

A discriminação

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Ela percebeu desde cedo que havia um fosso intransponível tendo como base a cor da pele. Não tinha as luzes do saber. Somente a intuição e a fé eram os seus guias. Esta era minha mãe, uma parda de uma mistura indefinida de índios, brancos e, sobretudo, de negros.

Lutou desde cedo contra as imensas adversidades de ter nascido num lar humilde, no interior da Bahia, de onde migrou com sua família fugindo de uma vida dura, adversa e cruel de obstáculos mil.

Percebeu desde cedo que a cor da pele era um obstáculo intransponível a ser vencido, numa sociedade machista e supremacista que dissimulava a sua cruel discriminação contra os índios e, sobretudo negros e seus matizes.

O que fazer num ambiente hostil como este? Apegou a sua intuição e, sobretudo, a sua fé inquebrantável que removeu montanhas ao longo da sua vida, já que não dispunha de outros atributos.

Incorporou, por não vislumbrar na época e no cafundó onde morava outra opção, a teoria da Síndrome de Estocolmo – que sequer tinha sido criada – e consistia, após longa intimidação, em adaptar, absorver e defender as teses do seu algoz, tornando-se um deles. Se não havia alternativa a não ser tornar-se branco, vamos esbranquiçar!

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Ela percebeu desde cedo que havia um fosso intransponível tendo como base a cor da pele
Esta é uma cruel sina que ainda permeia a nossa sociedade até hoje. Uma forma cruel de dominação que o colonizador encontrou de deixar negros e índios seus eternos servos, uma vez que nenhuma destas raças pode transformar em raça branca, o que resultou no maior caldeirão de miscigenação do mundo. Nos aprisionaram num círculo vicioso que nos impede até hoje de encontrar a nossa identidade.

Trabalhou comigo um advogado que tinha a cor da pele clara, mas o seu cabelo crespo denunciava a sua origem. Ele sempre tinha restrições contra pessoas humildes, pobres e, sobretudo negros, pois carregava o componente adquirido de querer ser o que não era, ocultando e desprezando a sua ascendência.

A minha mãe não discriminava ninguém, mas a luta pela sobrevivência a fez vestir a camisa de força da classe dominante ao dar conselhos como estes: – “Eu limpei a minha raça casando um branco. Não vá se casar com preto para criar urubus”-.

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O certo que eu descendo de escravos negros e vejo com satisfação a autoafirmação dos negros no Brasil e no mundo, combatendo com vigor a descriminação e seus selvagens desdobramentos.

O rico e abundante sangue negro corre nas veias do maior atleta do século, de um supercampeão de fórmula e 01, de um exemplar ex-presidente dos EUA e da sua futura vice-presidente, entre tantos outros membros ilustres da indomável raça negra. Registro que me encanta a alegria dos negros. A África é o continente da cor e da alegria.

Os filmes que vejo na televisão sempre retratam pessoas vestidas em cores alegres e cantado. Constato que eles ajudaram a tornar este pais, situado no fim do mundo, melhor com a sua alegria contagiante plasmada no samba e no carnaval.

É difícil vislumbrar o fim do estigma que impuseram aos negros e outras minorias pela odiosa discriminação. Entretanto, a roda da história avança na autoafirmação em todo o mundo, apesar de todas as dificuldades e percalços. Quiças…. Chegará certamente o dia que a chama da alegria africana tomará conta do mundo tornando-o menos hostil, mais fraterno e mais humano.

Renato Gomes Nery é advogado.

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Opinião

As tão esperadas vacinas

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Elas acabaram de chegar. Serão consumidas em conta-gotas. Aplicação lenta, uma por uma. São as vacinas da esperança. O mundo começa a sonhar por melhores dias, e passar a ter uma vida normal. As vacinas podem ser o sonho de todos e para todos, se tornando realidade.

Que essas vacinas sejam de fato o resultado de muitas orações. Que os clamores sofridos principalmente das famílias que perderam seus entes queridos, amenizem tanta dor.

As tão esperadas vacinas chegam com a responsabilidade de salvar todo o planeta. Oh senhor pai, todo poderoso, criador do céu e da terra, que assim seja e que assim se faça. Antes porém precisamos pensar com um pouco mais de serenidade.

As vacinas são o alivio de muitas apreensões. Principalmente das que não provocam dores: ansiedade, medo, incertezas e depressão. Longe de pensar que estou querendo jogar farinha no ventilador. Entretanto, fazer valer as recomendações contra o Covid-19, mesmo depois de ter tomado a vacina, é salutar e inteligente.

Que as vacinas sejam a solução não apenas da cura da pandemia, mas também, de forma de pensar dos poderoso
É sempre bom lembrar que “Com essa insana pandemia, todo cuidado pé pouco”. Não dá pra confiar de cara. Ainda estamos sem lenço e sem documentos que garantam a sua eficiência e sua eficácia. Não obstante, só o fato de pensar que elas podem ser a arma capaz de frear, e, quem sabe, acabar com a pandemia, já alivia a alma. Vamos acreditar, desacreditando que elas serão o “milagre dos peixes”.

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Além das recomendações das mudanças de atitudes da sociedade contra o Covid-19, a sociedade também vai ter que se acostumar, ou se adaptar para outras formas de vida. A expressão “Delivery”, veio pra ficar, assim como o trabalho “off home”, também. Aos poucos os costumes começam a modificar o comportamento da sociedade. Muitas coisas irão melhorar: o trânsito de automóveis nas ruas, as despesas com ônibus circulares do trabalho pra casa e vice-versa.

Outros comportamentos já estão em prática, bem como outros virão. O mundo é outro. Nós não somos os mesmos.

O mundo percebeu que felicidade é o resultado de uma vida saudável, aconchegante. A realidade sobre a vida das pessoas hão de se tornar o melhor bem estar do prazer pessoal.

As cabeças uns dos outros estarão voltadas para uma fé em Deus que até então não passava de uma simples Fé. Mãos dadas, confraternização, solidariedade, compaixão, serão os antídotos de uma nova era que se inicia. Se, por razões inexplicáveis, a guerra entre os países tem o poder de uni-las, essa ideologia macabra se desfaz.

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O Século XXI mostrou a sua cara. Quantos ouvidos ouviram a expressão “puxa vida em leno século XX! Estamos vendo isso ou aquilo?” Era como se parte da sociedade mundial estivessem tratando o seu semelhante como um desligado da visa, ou ignorando a sua filosofia de vida, pelo fato de que o seu conhecimento era pífio. Quanta arrogância dos privilegiados.

Que as vacinas sejam a solução não apenas da cura da pandemia, mas também, de forma de pensar dos poderosos. Quem nasceu para governar, não tem o direito de ter somente um coração, somente uma vontade, mas sim, a obrigação de ter pra ter, mas sim, de ter, pra ter, pra dar.

Gilson Nunes é jornalista.

 

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