REVEJA: Circo para crianças

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Foto: Elisana Sartori

Por Mylena Petrulli Desde a magia e o encanto até as técnicas e valores do circo chegam a bairros da periferia de Cuiabá por meio das mãos dos artistas e voluntários do Circo Leite de Pedras. O arte-educador e diretor da associação, Júlio Carcará, faz jus ao nome da associação juntamente com sua equipe, tirando ‘leite de pedra’ para levar as duas principais ferramentas de transformação social nas quais acreditam: arte e educação.

Embaixo da lona circense instalada em um terreno nos fundos da Creche Municipal Wilmon Ferreira de Souza, no bairro Três Barras, os instrutores e colaboradores ensinam malabares, cambalhotas, pernas de pau, equilíbrio, tecido e outras técnicas, tudo em uma estrutura improvisada, no chão de terra batida, em aparelhos com cola, remendos e nós, aparentemente feitos por quem tenta a todo custo não deixar o sonho morrer.

O tecido alaranjado se destaca suspenso em uma mangueira. A barra para ginástica pendurada é reforçada com fita isolante. As crianças usam roupas simples, algumas com uniforme da escola e a maioria tem os pés descalços e sujos de terra.

O projeto atual desenvolvido pelo Circo Leite de Pedras é o Circolando, que leva as oficinas de circo como complemento à educação formal de crianças em situação de vulnerabilidade social, moradoras de bairros pobres e periféricos de Cuiabá. O Circulando já passou pelos bairros Tijucal e Jardim Vitória; agora está no Três Barras e possivelmente segue para o Jardim Passaredo no próximo mês.

“A nossa função enquanto circo social é buscar pessoas em situação de risco, crianças e jovens que estão com dificuldades escolares. É uma ferramenta de arte-educação para melhorar a autoestima e outros valores”, explica o diretor Júlio Carcará.

A sede do Circo Leite de Pedras é o bairro Lixeira, desde o início da associação, em 2003. Por ser um local não muito centralizado e distante de muitos bairros, as dificuldades de transporte e acesso ao circo impediam muitas crianças de terem contato com a arte circense.

“Pensamos que era melhor fazer uma pequena versão e ir até os locais onde a gente pode mobilizar essas crianças. Levar o projeto até as crianças, e não que elas venham até o projeto”, reflete Júlio.

Entretanto, na prática, a ideia teve tantas dificuldades quanto o circo sediado no bairro Lixeira. Como o projeto é uma pequena versão do circo, a estrutura é ainda mais insuficiente para dar as aulas apropriadamente. A questão da formação continuada também é um grande problema, explica Júlio, pois o tempo curto em que o circo fica no bairro não permite uma formação completa das técnicas da arte circense e a saída posterior acaba afastando as crianças do projeto.

“É claro que você tem muito mais condições de dar estrutura em um local fixo. No bairro não há uma sequência, uma ação continuada. Temos que buscar outras estratégias. Queríamos atender mais comunidades durante mais tempo, mas os recursos são pequenos”, afirma.

A intenção do Circo Leite de Pedras é conseguir cada vez mais recursos por meio de editais públicos voltados para a arte-educação, com o intuito de aumentar o projeto, melhorar a estrutura, ampliar o alcance dos bairros e levar cada vez mais o circo aos pequenos.

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Foto: Elisana Sartori

“O projeto em que a gente atua tem que ter um olhar mais carinhoso dos governos. Por mais que a gente não possa reclamar nem da prefeitura nem do governo estadual, eu acho que tinha que se ampliar isso. Se os governantes começarem a ter um olhar mais carinhoso com projetos sérios, como é o caso do Circo Leite de Pedras, Inclusão Literária, Cena Onze, acho que Mato Grosso já vai dar um grande passo para realizar uma transformação efetiva na vida das pessoas”, defende o colaborador jurídico Márcio Campos, 46.

Para o pequeno Lucas Ferraz, de 9 anos, o melhor do circo é ocupar o tempo aprendendo coisas legais. “Eu gosto bastante porque aqui a gente não fica perdendo tempo na nossa casa, jogando videogame, viciado”.

Hoje professor e artista circense profissional, Benício Neto, 27, começou apenas como uma criança de 12 anos brincando de circo no projeto inicial do Leite de Pedras, no início dos anos 2000. “Eu comecei como as crianças daqui também, na idade que eles têm. Abro a porta da minha casa e vejo uma escola de circo. Era a praça do meu bairro mesmo e comecei a frequentar o projeto”, relata.

No início, tudo era brincadeira e diversão para Benício. Depois de aproximadamente três anos, ele foi vendo que poderia se tornar sua profissão e decidiu se especializar na arte circense. O artista já passou por cidades da Argentina, Paraguai e Bolívia, sempre trabalhando com o circo.

Hoje Benício ministra aulas no projeto Circolando ‘Tirando leite de pedras’. Mas ele garante que é muito recompensador. “Nós não podemos pensar que é impossível fazer arte em Cuiabá. Mas é muito difícil. A gente tem que fazer um esforço desse, vir até aqui, talvez não esteja recebendo nada, mas recebe aquela outra parte que é ver que você está transmitindo a sua arte, está ensinando outras pessoas que podem ir ao circo, continuar essa arte milenar”,  pontua.

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Foto: Elisana Sartori