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Capa Apesar dos riscos... Atitudes fazem a diferença quando a ferramenta é o gênero humano. Por Dayane Nascimento e Rui Matos
O ineditismo foi mais relevante que a base da linha de produtos de beleza criada por Tânia Kramm, o óleo extraído da gordura localizada na região abdominal da ave. “Na Europa, esse tipo de óleo é mais comum na fabricação de cosméticos. No Brasil, temos um filão a ser explorado”, evidencia Tânia, que responde pela direção de Marketing da Ostrich Cold Cream. Abraçar um projeto, sobretudo no campo profissional, é o objetivo de muitas pessoas. A diferença está no que impulsiona a execução de tal plano, que pode ser uma ideia ou visão. Ideia é algo que “existe na cabeça e não tem a menor pretensão de acontecer”. É possível ficar só no campo dos conceitos e nunca partir para a concretização dos planos. A escolha é pessoal. Já a visão é naturalmente empreendedora. Uma paixão no presente por algo que vai existir no futuro, como define o colaborador do Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP), Renato Fonseca de Andrade em seu livro Conexões Empreendedoras. Aristóteles afirmava que o gênero humano tem impulso pelo conhecimento. E para ser empreendedor, o mergulho no saber se torna inevitável. Não é difícil imaginar que os Kramm beberam dessa fonte. “Adaptamos conhecimentos agregados às pesquisas com matérias-primas regionais para obtermos um produto com características únicas”, argumenta a diretora de Marketing da Ostrich.
Atualmente, a empresa mantém parceria com distribuidores em vários estados. Saltou de 10 pontos de venda em Mato Grosso para 72 em todo o país em menos de dois anos de atuação. Entre seus produtos estão os bálsamos analgésicos, hidratantes corporais, labiais, creme anticelulite e uma linha masculina exclusiva. A diretora técnica do Sebrae Mato Grosso, Leide Katayama, 61 anos, lembra que todas as pessoas são empreendedoras. “A questão é que muitos se tornam empreendedores pela necessidade e não pela oportunidade”, destaca. Nesse caso, não há planejamento e nem pesquisa de mercado para saber se existe necessidade daquele novo projeto. Leide Katayama explica que uma pessoa empreendedora é criativa, flexível, aceita desafios, corre riscos, adapta-se a mudanças e tem capacidade de trabalhar com várias coisas ao mesmo tempo. “Mas essas e outras características precisam estar em equilíbrio”, lembra a técnica do Sebrae. É necessário também uma boa pesquisa, planejamento e conhecimento da área em que vai atuar. “Não é porque um amigo montou uma padaria e deu certo que é preciso ir pelo mesmo caminho. É preciso entender e gostar um pouco da área, mas, sobretudo, é preciso sonhar e realizar”. Atitude empreendedora “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional”. Esta frase do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade traz uma reflexão sobre o sentimento das “coisas que foram sonhadas e não se cumpriram” e o que essas irrealizações provocam nas pessoas: dor, tristeza, anseios. O sofrimento vem como uma consequência. Como uma necessidade aparente. Ao qual se pode ceder ou não. “... é opcional”. E por ser uma escolha, a lavradora Maria Edna de Souza, 55 anos, decidiu não velar sua própria dor. Moradora do Assentamento Rural Dorcelina Folador, na zona rural de Várzea Grande, distante 25 quilômetros do centro de Cuiabá, é um modelo vivo de luta e ânimo. E se empreendedorismo é transformar visão em realidade, Maria Edna é exemplo de alguém que articulou os poucos recursos que tinha para a concretização de um projeto: a produção de flores tropicais (das espécies de helicônias). Totalmente urbana, como Maria Edna mesmo se define, sofreu muito com o processo de adaptação na zona rural. Não sabia o que era morar em sítio ou trabalhar com a terra. Mas sempre achou interessante o cultivo de flores. Sua curiosidade por essa prática não a deixou pensar duas vezes ao saber que o Sebrae estava selecionando quem quisesse fazer parte do projeto que visava apoiar pessoas interessadas nessa produção.
Fonte de energia Nas helicônias, dona Maria encontrou, além de uma terapia, a forma de resgatar a estima e a força que precisava para garantir a sobrevivência. Não demorou para que o Sebrae entrasse em contato com ela e demonstrasse interesse pela sua história e principalmente por reconhecê-la. Assim, tornou-se vencedora do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios 2009, na fase estadual e Centro-Oeste, e ficou em segundo lugar na etapa nacional. O prêmio visa reconhecer mulheres que lutam por um espaço na sociedade. A florista considera-se uma pessoa parcialmente realizada, pois ainda não consegue viver apenas das flores. “Quem sabe eu me torne um dia uma exportadora de flores como tantas outras mulheres pelo Brasil”, dispara empolgada. Maria Edna impulsiona não apenas quem sabe da sua história, mas quem a acompanha. Suas sementes de otimismo e empreendedorismo incentivaram até mesmo o filho, Ângelo Bernardo, que assim como ela deixou a cidade há um ano para morar no pequeno sítio do assentamento rural. Ela faz planos para sua vida e de seu filho de um futuro de cores, mas sabe que não pode esquecer o que já passou em preto e branco. “Ainda vou escrever um livro contando desde o primeiro dia em que minha mudou”, planeja. “Se você tem uma história, tem que revivê-la e contá-la para motivar outros, além de estimular o próprio futuro”. E como todo processo demanda tempo para concretização, Maria Edna sabe que está no caminho para um negócio que só tende a crescer. “Me procure daqui dois anos ou um pouco mais. Posso garantir que estarei mais realizada que hoje. Não satisfeita. Mas feliz por ver meu negócio prosperando”, desafia. E ela tem razão. As flores tropicais apresentam características favoráveis à comercialização, como beleza, exotismo, diversas cores e formas, resistência ao transporte, durabilidade pós-colheita, além de grande aceitação no mercado externo. Em Mato Grosso, o cenário é otimista. A produção mundial de flores e plantas ornamentais ocupa, atualmente, uma área aproximada de 190 mil hectares, movimentando valores em torno de US$ 16 bilhões por ano, somente do setor de produção e, no varejo, atinge cerca de US$ 44 bilhões por ano. A floricultura brasileira começou a se destacar como atividade agrícola de importância econômica há pouco mais de três décadas. E, atualmente, o mercado brasileiro é superior a R$ 700 milhões e disponibiliza mais de 120 mil vagas para o mercado de trabalho. Os dados são da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Novidade empresarial Experiências que vêm e que vão, como a dos jovens Felipe Louzich, 21 anos, e Diego Oliveira, 23 anos. Beneficiários da Lei Complementar nº 128, de 19 de dezembro de 2008, que regulamentou e instituiu o Programa Empreendedor Individual, eles estão no pique na Copa de 2014, que tem Cuiabá como uma das 12 sedes. A expectativa é que os investimentos em obras de infraestrutura, hotéis, arena esportiva, entre outros, superem os R$ 10 bilhões. Em agosto, Felipe inaugurou a Loja Exclusiva Vicenza, para representar a Suprema, empresa do amigo Diego, uma marca de móveis planejados que está se inserindo no mercado mato-grossense através do sistema de lojas personalizadas. Com visão empreendedora, eles entraram no mercado para ser referência principalmente na união entre bom gosto e funcionalidade. “Para alcançar essa referência, contamos com variadas linhas e diversos padrões de acabamento, acessórios e ferragens. Detalhes que farão toda a diferença no ambiente, seja ele residencial ou corporativo”, revela. A intenção da dupla é marcar um gol de placa, decorando as centenas de apartamentos e novas recepções de hotéis e escritórios que serão construídos até o evento, em 2014. Para Leide Katayama, Felipe e Diego estão entre os muitos empreendedores que tiveram iniciativa em começar seu próprio negócio de olho num mercado de oportunidades latentes. “O mercado é para quem se joga nele, mas com muita responsabilidade”, afirma. O arquiteto Lindomar Dorileo, 39 anos, também persegue os princípios do empreendedorismo. Ele não faz questão de estar em escritórios refrigerados e, normalmente, está sempre no canteiro de obras. “Assumi uma postura de resultados. Há uma série de fatores que precisam estar alinhados e a satisfação do cliente é apenas um deles”, define o arquiteto. Lindomar argumenta que um negócio bem-sucedido não depende apenas de estratégia, máquinas, equipamentos ou capital de giro. “O que projeta a empresa ou empreendedor para frente não são apenas os lucros, mas os princípios e os valores baseados numa filosofia de vida empreendedora”.
Outra pesquisa GEM - que mede a evolução do empreendedorismo no Brasil, divulgada em abril deste ano, mostrou que a maior parte dos negócios é desenvolvida por jovens, como Felipe Louzich e Diego Oliveira. Cerca de 52,5% dos empreendedores têm entre 18 e 34 anos. Os resultados indicaram ainda que o número de negócios com até três meses de atividade cresceu 97% em relação a 2008, quando 2,93% da população adulta comandava empreendimentos. Em 2009, esse número passou para 5,78%. Tânia Kramm faz parte dessa estatística e já acumula bons resultados. Foi vencedora da atapa estadual do MPE Brasil 2009 – prêmio de competitividade para micro e pequenas empresas, na categoria Agronegócio. Recentemente, a Ostrich também foi contemplada pelo Edital SENAI-SESI de Inovação 2010. “Empreender é fomentar o sucesso onde menos se espera”, resume Lindomar Dorilêo.
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