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“A sociedade não está preparada para lidar com o fogo” :: Portal Revista RDM

Entrevista - Laurent Micol
“A sociedade não está preparada para lidar com o fogo”
Ambientalista diz que as queimadas acabam com todos os esforços já feitos contra o desmatamento, e desabafa: “é preciso empenho e conscientização”.

Marcela Machado

Foto: Felipe Barros
"É preciso superar, imediatamente, a aparente oposição entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental"
Coordenador Executivo do ICV- Instituto Centro de Vida -, o francês naturalizado brasileiro Laurent Micol, 37 anos, diz que a sociedade e o Estado não estão preparados para lidar com uma seca tão severa quanto essa que ocorre em Mato Grosso. Especialista em Gestão Ambiental e mestre em Geografia Regional e Meio Ambiente de Mato Grosso, ele defende a efetivação da comissão de monitoramento criada para monitorar as áreas de risco de incêndios florestais e urbanos e propor ações. Laurent se juntou ao ICV em 2001.  O instituto é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), fundada em 14 de abril de 1991, cujo trabalho consiste em construir soluções de sustentabilidade.

Quais são as consequências do fogo em Marcelândia, no extremo Norte de Mato Grosso?
Há consequências imediatas e também a longo prazo. As imediatas todo mundo vê e sente. A situação é ainda pior, já que os prejuízos econômicos não foram calculados inteiramente. Se considerarmos as perdas em indústrias, residências, empregos e, ainda, o impacto social e os danos à saúde e ao meio ambiente esse prejuízo fica imensurável.

As mudanças climáticas impactam ainda mais nesse momento?
Sim. Queimada é o meio mais fácil e eficaz de emitir carbono, que é o responsável pelo efeito estufa, responsável pelo aumento das temperaturas no planeta. Essas queimadas acabam com todos os esforços já feitos contra o desmatamento. O nível das queimadas deste ano fez com que Mato Grosso voltasse a ser um dos maiores poluidores mundiais.

O governo poderia ter ajudado a evitar essas queimadas?
Não só ele, mas a sociedade também. Ambos não estão preparados para lidar com uma seca tão severa quanto essa que estamos vivendo. É claro que não dá para culpar o governo e achar que ele é o único responsável por evitar esses acontecimentos.  O governo tem feito campanhas de conscientização, mas só isso não é suficiente.

O que é necessário?
O Estado já aprovou um plano de prevenção e combate ao desmatamento e às queimadas, mas as medidas só foram parcialmente implementadas. Entre outras coisas, esse plano estabelece uma comissão de monitoramento com participação de secretarias de Estado, prefeituras, o terceiro setor e a sociedade. É um papel de acompanhamento das áreas de risco.

O que deveria haver de iniciativas públicas e privadas?
O que deveria ser feito de imediato é a conscientização da população. As pessoas têm que entender que não se pode arriscar com nenhum tipo de fogo. Nessa época do ano, principalmente, o risco é muito alto. Para prevenir mesmo, só com a população tomando a frente. Todo o setor público, não só o governo do Estado, deve fazer campanhas e acompanhamentos, ainda mais nas áreas rurais. Nesse contexto, o cumprimento da lei ambiental com as suas punições é essencial.

Mas nem sempre essas multas são pagas...
São vários os motivos para que não sejam pagas. O principal deles é que é muito difícil saber de quem é a autoria do fogo. Então, não dá para responsabilizar ninguém. Por isso é preciso que haja mais perícia nos locais das queimadas. Também há muitas instâncias de recursos, o que dificulta. O acusado pode se defender e protelar durante anos até que o valor seja pago. Se o sistema de cobrança fosse mais simplificado e a punição mais real, com certeza diminuiria o número de queimadas.

Nesse processo, qual a contribuição do ICV?
Fazemos monitoramento e conscientização. Esse é o melhor meio, pois cria um pensamento coletivo de preservação. Trabalhamos em alguns municípios e, principalmente, em assentamentos rurais. Esses locais de reforma agrária são os de maiores riscos de fogo. É um esforço de educação e recuperação de área. Se o pedaço de terra está produzindo e dando frutos, o assentado não vai querer queimar por nenhum motivo. É a maneira mais eficaz de conscientizar, mostrando a produção.

A Lei de Resíduos Sólidos vai amenizar essa situação?
A lei vai obrigar e incentivar municípios e Estados a tratarem de forma mais séria os seus resíduos, especialmente nas áreas de aterro sanitário. Dizem que o foco de incêndio em Marcelândia começou em um lixão. O problema é que quando a queimada é na cidade, ela atinge um número muito maior de pessoas por causa da densidade demográfica. Os lixões são algumas das maiores fontes de poluição em vários níveis nos centros urbanos e dizem que essa lei vai fazer com que os resíduos sejam mais bem tratados e tenham uma destinação final mais adequada. Esperamos que o objetivo seja atingido. O foco de trabalho do ICV é mais rural do que urbano.

Na luta pela preservação do ambiente há conflito de interesses entre a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama)?
No âmbito da questão do combate ao fogo há muita cooperação e trabalho em conjunto. Há colaboração da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros, principalmente. Quando o assunto é fogo, todos buscam trabalhar para resolver de forma satisfatória e com menos danos possíveis.

Mas entre congressistas e ambientalistas não há consenso...
É preciso, imediatamente, superar a aparente oposição entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Os dois caminham juntos. Um é a condição do outro e se precisam mutuamente. Para ter desenvolvimento econômico a longo prazo, é preciso ter a preservação ambiental. Não podemos ignorar os impactos nos recursos naturais provocados pelas atividades econômicas feitas sem responsabilidade. Isso já é algo que todo mundo sabe. Um ruralista, por exemplo, sabe que se lotar o pasto com gado acaba com a nascente de água. Se ele não cuidar da vegetação, em pouco tempo não terá mais do que dispor. Não é inteligente esse uso desenfreado dos recursos visando somente o lucro. Depois ele acaba e há prejuízo.

Onde estaria a concordância de ideias?
O que os congressistas precisam é buscar um equilíbrio entre desenvolvimento e preservação por meio das leis. Um desses exemplos é o Código Florestal. Por enquanto, ele ainda não é uma proposta totalmente equilibrada. Ele tem olhado mais para o lado dos ruralistas. De qualquer modo, eu acredito que, por meio de diálogos, essa conciliação seja possível.

O que o futuro nos reserva?
Eu enxergo dois cenários para o futuro. Ou conseguimos dar uma virada em termos de consciência ambiental e em termos de implementação das políticas, ou a tendência é piorar. Cada vez que tem uma queimada, a área que passou por isso fica mais inflamável, mais propícia ao fogo. Uma área de floresta já queimada é muito mais fácil de queimar do que uma preservada. Além disso, nesse cenário há mudanças climáticas, temperaturas elevadas, estações mais secas e prolongadas e um processo que chamamos de savanização da vegetação nativa. Espero que o primeiro cenário prevaleça, mas, para isso acontecer, é preciso empenho e conscientização.

Serviço:

www.icv.org.br


Fonte: Portal Revista RDM
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