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Comportamento Conflito de gerações Os anos se vão, a cultura evolui, mas nem todos aceitam as transformações. Por Marcela Machado e Rui Matos
“Nossa juventude adora o luxo, é mal educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. São verdadeiros tiranos”. Este é um dos questionamentos contra atos e atitudes dos jovens. Poderia ser, como dizem, um mal dos tempos modernos, se o autor desta frase não fosse Sócrates, filósofo grego que viveu por volta de 470/399 a.C. Mas, o que estaria acontecendo realmente com nossos jovens? O drama envolvendo o jovem goleiro Bruno Fernandes Souza, do Flamengo, no desaparecimento da ex-amante Eliza Samudio, 25 anos, que tentava provar que o ídolo da maior torcida do esporte nacional era o pai do filho dela, de quatro meses, expõe uma das facetas dessa realidade presente no dia-a-dia do brasileiro. Arte imita a vida Em 1955, o ator norte-americano James Dean estrelou o filme ‘Juventude transviada’ (Warner Bros), interpretando um “jovem problema”. Em pleno século 21, essa história parece ter sido tirada das páginas de qualquer jornal brasileiro. A história não é real, mas bem que poderia pela atualidade dos fatos. Embora trate da realidade dos jovens daquela época, vê-se claramente a abordagem de uma situação que transcende para os nossos dias. É o choque entre gerações. O desencanto da adolescência. A necessidade de autoafirmação. Entender esse universo é fazer um passeio entre o passado e o presente, entre a arte e a vida. Em qualquer época, um jovem terá sempre no âmago os mesmos padrões de comportamento. O que fará a diferença vai ser o adulto que estiver vivendo na época deste jovem. O que este adulto tiver como bagagem para passar a esse jovem vai ser o diferencial. Um adolescente hoje já fuma e toma cerveja na frente dos pais, da mesma forma que há quarenta anos lia um bom livro. Meninos e meninas, muitas vezes, têm seus quartos liberados por seus pais para o sexo. Mas, por quê? Porque para os pais é mais seguro ter seus filhos em casa, mesmo que fumando, bebendo cerveja ou transando. Inversão de valores Atualmente, não se encontra muita ética entre jovens. Mas isso não é regra geral. É coisa de minoria. Mas acaba influenciando na vida de tantos outros. Talvez seja um pouco de culpa do “tudo liberado”. Da inversão de valores tão combatida pelos mais lúcidos.
Se no auge da ditadura militar - de 1960 até final de 1970 -, muitos jovens morriam torturados, lutando contra um regime político que vinha contra seus princípios, agora, muitos lutam, brigam, matam e morrem em torcidas de futebol, no trânsito e até na escola. Menos por ideais individuais ou coletivos. Matam-se namoradas como Eloá Pimentel e Mércia Nakashima, e até quem imagina ser a namorada, como a atriz Daniela Perez. Raiz do problema A criação de filhos sempre foi uma área turbulenta na vida de uma família, não foi diferente no caso do goleiro Bruno. Pai e mãe que não concordam na maneira de disciplinar os pequenos, avós que acham que os pais estão sendo muito rígidos ou muito sutis com as crianças, e por aí vai. Esse é um ponto de discussão em muitos lares, tanto que às vezes é até razão para o divórcio. Pior ainda, quando o casal é separado e cada um trata e ensina o filho de determinada maneira. A diferença entre as gerações também é motivo de conflito. Na década de 1950, o modo de pensar era totalmente diferente de como é hoje, afinal, muitos anos se passaram e já estamos até mesmo em outro milênio. Algumas pessoas com mais idade podem achar que os costumes das crianças e adolescentes, atualmente, são perdidos, vulgares, mundanos. Mas o mundo gira, a cultura muda e as pessoas precisam aceitar as mudanças. O berço como exemplo Não há como fugir da família como exemplo. As maiores diferenciações são a idade em que se casava há alguns anos e também na quantidade de filhos. Nilza Miranda Gomes Monteiro, 68 anos, é a matriarca de uma família numerosa em Cuiabá. Teve oito irmãos e se casou aos 16 anos. Aos 21 já era mãe de quatro filhos. Na mesma trajetória, sua filha mais velha, Rosalie Miranda Gomes Monteiro, 49 anos, se casou aos 17 anos e teve três filhos. Já a neta, Juliana Gomes Monteiro Mihran Neves, 31 anos, que se casou aos 25 - cedo para os padrões atuais -, já tem uma filha de quatro anos e um garotinho de três meses. “Depois deste, vou fechar a fábrica”, brinca. Se na década de 1940 a família tinha até oito filhos, Juliana é a prova desse novo quadro, com apenas dois herdeiros.
Rosalie Monteiro acredita que o choque da geração da sua mãe para a sua foi o maior de todos. Foi nessa época que a mulher começou a trabalhar, ser independente e a ter vida própria. Para ela, particularmente, a mudança foi ainda mais drástica porque se casou, divorciou, algo que ainda não era tão bem aceito, sustentou a casa, foi pai e mãe dos filhos e ainda esteve e está sempre próxima a eles. Houve um grande intervalo entre a sua filha mais velha, Juliana, e a mais nova, Nathália, 21 anos. Foram dez anos que fizeram a diferença na maneira de criar as duas. Esta teve muito mais liberdade do que aquela e os seus medos de que a filha ficasse grávida ou usasse drogas foram atenuados porque entendeu que o mundo é outro hoje em dia. “Eu percebo que a minha mãe pegou muito mais no pé da minha irmã do que no meu. Ela sabe que me criou bem e que eu tenho responsabilidade. Não é só porque eu sou livre que vou sair fazendo qualquer coisa”, comenta Nathália. Pitadas de modernidade Por mais que se admire a criação dada pelos pais, os filhos dificilmente a fazem da mesma maneira quando chega a sua vez, pois a época é sempre outra. A psicoterapeuta infantil Daniela Freire explica que antigamente se achava que as crianças deviam ser moldadas iguais a adultos e que a disciplina correta era a unilateral, quando somente os pais mandavam. Hoje os jovens têm voz ativa, opiniões e há mais diálogo entre as partes. “Agora o poder é circular, já que não existe mais o pensamento da verdade absoluta. A criança pode contestar algo arbitrário e estar certa que isso não tira a autoridade dos pais”, salienta. Mas essa relação de troca não significa que elas podem ser criadas com liberdade total e a psicoterapeuta vai além: “Eu não advogo a ausência de limites. O mais correto é lhes dar espaço com restrições e não colocá-los em bolhas de proteção”.
Muita coisa mudou mesmo. Nos tempos de dona Nilza ainda se castigava criança. Hoje, nem pensar. O Brasil pode ter, em breve, uma lei que proíbe a palmada. Se aprovado o projeto de lei enviado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Congresso, quem não cumpri-la poderá ser punido com advertência e até perder a guarda do filho, conforme a gravidade do caso. Para a freira Marluce Almeida da Silva, diretora do Colégio Notre Dame de Lourdes, em Cuiabá, por trabalharem o dia todo, muitos pais se sentem culpados de não estarem com os seus filhos e lhes dão o que desejam. Castigo, jamais. “Isso é prejudicial para a formação da criança, já que ela fica sem limites. Para que as crianças não fiquem mimadas, é preciso alinhar ternura e firmeza”, argumenta a religiosa. Como dizia o educador Içami Tiba, “os pais não podem delegar a educação total dos filhos à escola. Ser aluno é transitório, ser filho é perene”.
Apesar de muitas pessoas dizerem que atualmente os jovens estão perdidos, essa expressão foi usada mesmo antes do período pré-socrático. Os tempos mudam, mas sempre há pontos positivos. “É interessante abrir os olhos e enxergar os aspectos lindos dessa geração”, comenta a irmã Marluce. De acordo com ela, os adultos não podem ter saudosismo em relação ao que era e ao que é. “Se virmos as suas características como potencialidades, podemos desenvolvê-las, trabalhá-las melhor e, assim, descobrirmos aspectos maravilhosos na nova geração”, acrescenta. O fato é que nada justifica a rebeldia, os crimes ou o desando de muitos jovens no decorrer das épocas. Apesar dos culpados apresentarem coerentes acusações, a raiz do problema, segundo o próprio Sócrates, está, principalmente, dentro de nós.
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