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Entrevista - Pedro Ferreira de Souza
Mato Grosso precisa de uma coalizão para o desenvolvimento
Presidente da AMM diz que o exercício da cidadania é a receita para uma administração pública transparente e eficiente.

Por Rui Matos

Foto: Vicente de Souza
"O político nada mais é que o representante da sociedade na gestão pública. É o procurador do povo"
O presidente da Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM) e prefeito do município de Jauru, distante 447 quilômetros a oeste de Cuiabá, Pedro Ferreira de Souza (PP), 38 anos, é o que se pode chamar de gestor consequente. Reeleito em 2008, vai comandar o município até 2012. Com uma clara visão da gestão participativa, Pedro Ferreira diz que não se governa sem a sociedade e que para promover o desenvolvimento regional é preciso abandonar as ideologias partidárias.

Prefeito, a omissão da sociedade é um dos graves problemas da gestão pública?
Não se governa sem a sociedade. Muitos dos problemas que os municípios enfrentam, e até mesmo a corrupção, em parte deve-se a essa omissão. A sociedade ignora as audiências públicas para discutir a Lei de Diretrizes Orçamentárias ou o Plano Plurianual. Não adianta, depois, entrar no meio do caminho com cobranças. O cidadão precisa conhecer mais sobre o orçamento do município para que ele possa fiscalizar adequadamente e colaborar com aquilo que realmente interessa a todos.

É preciso encarar o município como uma empresa, onde o cidadão é acionista?
O município é de todos e precisamos pensar e agir coletivamente. Quando uma pessoa ignora a gestão, destrói um banco de praça, joga lixo no chão, sonega impostos ou não avalia corretamente o seu voto, ele está dilapidando o seu próprio patrimônio. Ninguém é obrigado a gostar do prefeito, mas todos têm o dever de ajudá-lo a governar bem, de forma democrática e com transparência. É preciso ser cidadão de fato. Só assim faremos de nossas cidades espaços de convivência saudáveis e com qualidade de vida.

Essa mesma coalizão pode ser empregada aos políticos?
O político nada mais é que o representante da sociedade na gestão pública. É o procurador do povo. Tem a missão de ser mais eficiente, justo e engajado. Política não é profissão. É um momento oportuno para àqueles que queiram ir além da simples cidadania para pôr as mãos na massa e lutar para que o processo democrático se consolide em todas as esferas da administração pública.

Essa ação política deixa a desejar quando o assunto é desenvolvimento regional?
Felizmente já superamos isso. Desde 1998 o movimento municipalista já promoveu 13 marchas a Brasília para defender interesses comuns dos municípios, sempre observando as diferenças regionais.

Como fortalecer essa linha de pensamento no Estado?
Não há como nivelar o desenvolvimento por questões geográficas e de infraestrutura, principalmente. Mas é possível fazer com que o desenvolvimento regional seja mais justo. Não podemos nos fechar politicamente como se fôssemos uma ilha, e esquecer os vizinhos.

Qual o primeiro desafio?
Derrubar as barreiras partidárias e ideológicas para planejar o desenvolvimento regional. Muitas vezes um município tem condições de receber um laticínio mas não há como plantar um palmo de pasto. Aí entra essa coalizão política para identificar as vocações, as potencialidades, preparar a mão-de-obra, atrair empresas e trabalhar em conjunto a questão de infraestrutura.

Essa não é a missão dos consórcios intermunicipais?
Os consórcios foram as ferramentas de gestão mais importantes da última década e nasceram dentro da AMM. Mas não se pode cuidar apenas de patrulhas rodoviárias e ter a manutenção de estradas e rodovias como a principal bandeira. É preciso avançar na discussão sobre arranjos produtivos locais. Só olhando para as estradas não há como incrementar a economia com atração de empresas e a consequente geração de empregos e de rendas. Há questões importantes nas áreas de saúde, educação e agricultura que precisam sem pensadas do ponto de vista regional e os consórcios são imprescindíveis.

A AMM é fundamental nesse processo?
Atuamos em conjunto em tudo o que podemos. É inadmissível que um município cresça ou que seja beneficiado em detrimento de outro. Buscamos sempre o equilíbrio de forças. O momento político pelo qual passamos é muito bom e a mentalidade dos nossos gestores hoje supera qualquer dificuldade partidária. Município forte é Estado forte.

Administrar em período eleitoral aumenta o desafio?
Por força das limitações a gestão fica um pouco engessada. Nesse período todos os convênios e parcerias são interrompidos. Trava quase tudo.

A unificação das eleições seria uma saída?
O país perde com eleição de dois em dois anos. Com mandatos unificados, conseguiríamos cumprir uma meta de planejamento junto com o Estado e com a União. Sem contar que cortaríamos os gastos com a eleição pela metade.

O Movimento Municipalista já busca essa mudança?
É uma luta antiga e a AMM foi uma das pioneiras a sugerir a eleição unificada. A própria nação já percebeu a irracionalidade de eleições separadas. Cabe aqui também uma discussão sobre um mandado mais longo ou mesmo mantendo a reeleição. Não se promove o desenvolvimento a curto prazo.

Por que há tantos problemas nos municípios?
A culpa, em parte, é do Pacto Federativo que não funciona como deveria. É no município que tudo acontece, mas, infelizmente, os recursos ficam quase que cem por cento nas mãos da União. Como o governo federal trabalha com migalhas e ainda tem o respaldo do Congresso aprovando apenas o que interessa ao governo federal, os municípios continuam penalizados. Não podemos mais ser os vilões nessa história.

Há uma inversão de valores?
Exatamente. Em julho, por exemplo, tivemos uma queda de 28% na receita. Não há como bancar a máquina administrativa e ainda ser responsabilizado pela ausência da União no combate à pobreza e ao desemprego, por exemplo. Uma das missões da AMM é buscar soluções, e isso, tenho feito com muita responsabilidade para amenizar o caos.

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